Quando versos sustentam paredes invisiveis
Em 1971, quando
Chico Buarque gravou
“Construção”, o
Brasil sangrava sob o
AI-5. A canção surgiu como um
monumento sonoro erguido nas
frestas da ditadura,
exílio transformado em arte,
dor composta em
proparoxítonas. Cada verso
alexandrino, com
suas doze sílabas cortadas ao
meio, espelhava a
fratura do trabalhador brasileiro:
metade ser humano, metade engrenagem. É perceptível
na letra a ação do operário sobre a
construção “como se fosse máquina”, beija a mulher
“como se fosse lógico”, e na
terceira estrofe, repousa-se. Desse modo,
a genialidade não está somente
na denúncia, mas na arquitetura da palavra: as proparoxítonas finais (
“última”, “sólidas”, “flácido”) funcionam como
vigas de concreto sustentando um
edifício de desumanização.

A alienação como ritmo
O trabalhador de Chico vive uma coreografia de repetições. Acorda, ama, atravessa ruas, sobe andaimes, gestos que poderiam ser sagrados, mas são reduzidos a passagens sonoras. Quando come feijão com arroz “como se fosse um príncipe”, há um lampejo de dignidade; quando soluça “como se fosse máquina”, o colapso psíquico se revela. Rogério Duprat, o arranjador, traduziu essa angústia em cordas que se enroscam como fios de guindaste, percussão que imita marteladas, e um crescendo orquestral prenunciando a queda. O sofrimento não é acidente: é projeto.

Do Andaime ao Asfalto
A morte do operário não é evento heroico, é
inconveniente urbano.
“Morreu na contramão atrapalhando o tráfego” é talvez o verso
mais brutal da música brasileira. A inversão de valores
é exposta nas
três variações do desfecho:
atrapalhar “o tráfego”, “o público”, “o sábado” mostra uma
sociedade que prioriza
fluxos sobre vidas. A queda física simboliza
o colapso psíquico: o mesmo homem que horas antes “erguia quatro paredes mágicas” agora é “pacote flácido”.
Chico não narra um
acidente de trabalho, denuncia um
assassinato social.
O Silêncio como Sintoma
Lançada em pleno “milagre econômico”, a canção desmascarava a farsa desenvolvimentista. Enquanto o regime celebrava Brasília e estradas, Chico lembrava quem as construía: corpos que viraram números nas estatísticas de “acidentes”. O trabalhador da canção é tão invisível quanto Chico foi perseguido, preso em 1968 por estar de braços dados com Gilberto Gil, o mesmo que foi exilado em Londres no ano de 1969, retornando para o Brasil em 1972. Desse modo, a genialidade foi usar a estrutura musical como arma: a ditadura podia censurar palavras, mas não decifraria a complexidade das proparoxítonas.

O Corpo Em Forma De Máquina, A Alma Um Entulho
Em uma análise recente, feita pelo psiquiatra
Gustavo Bohnenberger, aponta-se que a
música “Construção” antecipou debates sobre
saúde mental no trabalho. Vale destacar o
verso “seus olhos embotados de cimento e lágrima”, que
sintetiza a dupla
cegueira, de um
lado física (pelo ofício do trabalho) e emocional (por estar alheio de algo). Quando o
operário dança
“como se ouvisse música”, temos um momento de
resistência psíquica,
breve delírio antes do
fim. Por fim, o trabalho, quando
não dedicado ao interesse da
humanidade, e sim de um grupo específico,
torna-se trabalho alienado, fazendo com que o indivíduo perca sua liberdade social, tornando-se somente
força de trabalho.
Quando Obra De Arte É Canteiro Vivo
Mais de cinco décadas depois (50 anos), “Construção” permanece espelho. Operários da construção civil ainda lideram estatísticas de mortes evitáveis; aplicativos de entrega reciclam a escravidão por algoritmo. A genialidade de Chico foi tornar a forma musical um manifesto: o uso obsessivo de proparoxítonas, palavras raras no português cotidiano, é metáfora da exclusão linguística e social. Como dizem os versos finais, ele “flutuou no ar como se fosse um príncipe” antes de se acabar no chão. Talvez ali esteja o último ato de humanidade, o ato de delirar, até mesmo na queda.

O Monumento Invisível
Portanto, “Construção” não é canção, é arquitetura de resistência. Seu alicerce é a dor transformada em beleza cruel; sua estrutura com modelo profundo. Enquanto canteiros ecoarem com martelos e silêncios, enquanto trabalhadores caírem “a atrapalhar o sábado”, Chico seguirá atual. Porque sua obra máxima não está nos discos ou livros: está na voz de quem ainda canta esses versos como quem ergue um monumento para as vidas que o progresso apagou. E nesse canto, há um ato de sobrevivência psíquica: lembrar que antes de sermos máquinas, fomos, e insistiremos em ser, humanos.
Um beijo, JacksonSilvel.
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